sábado, 25 de abril de 2026

Os últimos três anos

 Talvez o título fosse Thais.

Ao longo desses 3 anos, me custou muito escrever sobre você. 

Nunca entendi meu amor, afinal, nos conhecemos trabalhando ou, ao menos, eu te conheci lá. Sempre lembrava da nossa foto no evento. Eventualmente, alguns meses ou anos depois, começamos a conversar - bendita seja a pandemia! - e de uma torta de frango, surgiu uma boa amizade.

A amizade foi melhorando, nós fomos nos gostando, eu gostava da sua companhia online, sem nunca suspeitar que aquilo fosse gostar tanto da sua companhia, que aquilo fosse gostar de você. Eu tinha um trauma, eu achava que amava aquela que me traumatizou. Eram questões sexuais, as quais nunca vim a ter contigo, era aí que se escorava minha incompreensão natural do que eu sentia. 

Nesse tempo de pandemia, fui à terapia, e o tema recorrente era "ela é uma rebound girl?" Eu sempre suspeitava que meu amor estivesse noutro canto, até finalmente aceitar que o meu mundo foi todo englobado por você, pelo meu conceito de mundo que agora era, na verdade, você. Foi num piscar de olhos quando eu respirei e pensei "meu mundo é a Thais." Eu dizia "te amo hoje" porque eu tinha alguma noção da infinitude que é amar, mas sem conseguir conceber a existência de um ponto mais distante do que sentia por você. Era divertido acordar todos os dias tendo certeza de que estava vivendo algo transcendental.

Você era sonhadora e eu sempre me encantei quando você transparecia isso. Eu sempre sonhei, meus sonhos sempre foram o que me movia, mas em algum momento, você conseguiu sobrepor qualquer nível de importância de qualquer coisa na minha vida. Eu te admirava em tudo, você era tão inteligente, sabia conversar tão bem, era mais doce que qualquer doçura que eu ousaria conhecer, e de uma beleza que eu nunca me cansei de ver, contemplar, parar e sorrir. Eu sorria bobinho, acordado e dormindo, quando pensava em você, quando pensava na ideia de ter você ao meu lado. 

Dessa forma, eu não soube me lidar com o que sentia por você. Eu não queria te levar problemas, eu sabia todos ou talvez quase todos os seus traumas, mas tinha medo de entregar os meus. Vivi epifanias e infernos mentais ao seu lado pra não trazê-los a você. Naquilo que eu discordava de você, eu não sabia como te dizer, mas fomentava um ódio cego e desmedido. Isso gerava nossas brigas, você talvez naquele momento fosse areia demais para o meu caminhãozinho. Eu sabia que teria um caminhãozão, era o que todos à minha volta diziam, inclusive meu subconsciente, mas naquele momento eu era um doutorando fragilizado por sonhos e estilo de vida que só fariam sentido aí serem protagonizados por uma pessoa de classe média.

Seguramente, terei muito mais afinco pra escrever sobre esse momento em outro momento. Meu sonho de pequeno era ter alguém parecido comigo, alguém que pudesse me espelhar. Eu só fui entender que isso não seria possível no último ano. E daquele momento até pouco tempo atrás, minha maior frustração, minha maior dor foi descobrir que não teria em quem me espelhar. E veja a injustiça do universo: minha maior dor era ao mesmo tempo o fator que me possibilitaria traçar um caminho único na vida. Tudo isso pra te dizer que eu fui ouvir as pessoas; que eu fui ouvir o que tinham a dizer.

Pessoas que não tinham as minhas crenças, que não entendiam o mundo como entendo, que não sentiam o mundo como sinto, que nem sequer abstraíam sobre o mundo, como tanto fiz a vida inteira. Essas foram as pessoas que eu ouvi. Thais, não sei se é certo pensar num mundo contigo, hoje não sei se é o que eu quero, nem se é o que eu não quero, mas tudo que fiz a respeito de nós no nosso término foi ouvindo as pessoas e não ouvindo às pessoas. E veja que esses conselhos das pessoas depois (esse 'às pessoas') viriam a ser ainda piores do que aquilo que elas me diziam sem que eu pedisse conselhos.

Todo mundo quer o bem de todo mundo: de boas intenções, o inferno está cheio. Às vezes, querem o mal também, mas eu não devia escutá-los. Se os tivesse escutado, não seria doutor hoje, nem mestre, nem respeitado em todos os lugares que frequento, seja favela, seja jardins, seja universidade. Ao longo dos últimos tempos, ouvi que sou arrogante, que sou intransigente, que sou machista, que sou pilantra, com certeza terão dito coisas piores, enfim, coisas que a tal consciência tranquila serviria para não me incomodar, não tivesse ouvido isso das pessoas que me disseram essas coisas. Algumas dessas pessoas irrelevantes, algumas dessas afirmações grotescamente erradas, mas quem quer ouvir isso de amigos ou familiares?

Dessas pessoas, eu fiz o meu conceito, o conceito de uma pessoa que nunca teve em quem se espelhar, do que é uma relação feliz, do que é até felicidade ou até do que não é felicidade. Driblaríamos as dificuldade em algum momento. Tínhamos as minhas, tínhamos as suas, tínhamos as do Pietro! Ambos com diversas questões a serem superadas e ambos que estavam dispostos a superá-las. Ao menos, naquele momento. E hoje, ao longo desses 3 anos, fomos vivendo colchas de retalhos, fomos pulando em armadilhas psicológicas, onde vamos e voltamos, em simples mensagens de celular ou momentos mais próximos. Abastecemos aquela necessidade na reserva de nos vermos e paramos, sempre com o saldo de um dos dois sofrendo.

Aqui eu tenho liberdade para não mentir e mostrar o meu egoísmo: eu não concordo com isso que te seduziu. Eu estava ao seu lado e me senti traído quando você começou a fugir daquilo que eu acreditava que era você - você nunca concordou quando falei isso, mas você mudou demais, e eu também. Eu me senti traído em cada vez que eu acordava cedo e dormia tarde, pensando e discutindo estratégias do seu trabalho, tentando ser um parceiro na educação do Pietro (e aqui é onde eu mais me odeio por ter errado), e você parecendo não reconhecer que o sustento da nossa casa não era apenas aquela pequena fração financeira do que eu contribuía. E que inferno todas as vezes que tentamos nos abrir e não conseguimos! E que inferno você ter encontrado alguém! E que inferno que eu jamais consegui me manter mais de 6 semanas em cada relação que tive depois do nosso fim por me sentir te traindo! E que inferno é eu hoje ter um futuro que há quem considere brilhante e não ter com quem partilhar por ter queimado todas as portas da única pessoa que eu verdadeiramente gostaria de partilhar!

Que inferno é tudo o que aconteceu depois que escolhemos morar juntos, sem nos preparar, com a cara e a coragem, e a irresponsabilidade! Que inferno é essa sociedade de merda que do meu e do seu lado diz que não combinamos! Que inferno é ser uma pessoa neurodivergente e diferente e nem poder falar sobre isso porque me chamarão de arrogante! Que inferno é não termos sido perfeitos um para o outro e termos, enfim, acabado!

Que inferno é parecer frágil, mesmo sendo o homão da porra que sou, porque pra mim, você está num pedestal que ninguém nunca conseguirá conceber. Eu te desejo a felicidade plena!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Aliviando a dor que mata

 O peso do descanso é desolador, é uma treva que se acumula por entre a mente de quem tanto levou a descansar. É um exame de check-up que reflete cada pedacinho de emoção vivido no tempo, que acumulou desgaste e dor, é uma confirmação de todos os erros e acertos. É sufocante, mas tem sua beleza - pavorosa, ainda assim, complexa e resoluta.

Essa beleza que me destrói é também a que me faz rever o mundo. Tenho um tesão inexplicável pela paz e dela me consumo. Repensar o passado é um tiro de dardos num alvo fractal: tem probabilidade baixa de acertar, mas positiva; e tal positividade é ambivalente, já que também encrosta a esperança. Daí vem e daí parte a paz: é despreocupar-se e então reanimar-se, é reanimar-se e então despreocupar-se, é desse tesão autoalimentado que me refiro por paz.

A paz tem seu preço. É amarga como um café feito com muito pó e pouca água, resvala um sabor adstringente, mas permite andar mesmo com a perna bamba e uma sensação horrenda no rosto, um verdadeiro vitral na face. Note que é arte, arte de caras e bocas, enfeitada com a desilusão de um simples café. E dessa arte nos revigoramos, conseguimos levantar, sentimos as lágrimas escorrendo, de tempos em tempos, chuvosas, e delas nos fazemos indiferentes (se assim o fizermos). Alguns se recompõem com ginásio, outros com livros, outros com música, filmes, teatro, artesanato. Esse é o preço da paz: dói, mas permite o movimento.

Cada vez que andamos de mãos dadas; a sensação da paternidade não me assusta como aos tolos, mesmo que terceirizada, mas me assustou como um inexperiente; eu era uma criança cuidando de outra. Cada vez que andamos de mãos dadas, eu era feliz, dessa vez sobre ela. Antes de entender mais sobre mim, eu já sabia que o caminhar, com todas suas nuances, com a arte abstrata do concreto e do aço, com as sombras desproporcionais e toda a dor dos problemas sociais, eu já sabia que o caminhar de mãos dadas era um evento imenso pra minha mente e coração.

Nesses anos todos, foi muito difícil entender o método que funcionava. Talvez até hoje eu não saiba como funciono, mas sei que funciono e até que funciono bem. E dessa incompreensão vieram duas sutilezas que ainda me são estranhas: 1) por que me acham inteligente? e 2) por que sou carismático?

A primeira pergunta não é um tipo de falsa modéstia. Eu reconheço minha forma de pensar, mas não entendo porque pessoas chegam a esse tipo de conclusão sobre mim sem nenhum respaldo objetivo; muitas vezes eu sendo um péssimo aluno, tendo opiniões quase simplistas por diversos assuntos, mas pessoas e professores sempre me disseram isso, mesmo quando pra mim essa conclusão não fazia sentido. Eu só tive notas boas no ensino fundamental, depois disso, sempre fui um aluno mediano.

Enquanto para a primeira pergunta, eu consigo sentir um fio de resposta, a segunda me é absurda. Eu sou um esquisito, talvez de 2016 em diante, um pouco menos, mas tenho minhas esquisitices. Socialmente, muitas vezes sou estranho, um pouco afastado, com piadas totalmente desconexas (e que pra mim fazem sentido), não faz sentido esse carisma que tenho. Certamente, meus amigos gostarem de mim não é algo que me assusta, mas quando vejo desconhecidos, e com tanta frequência os vejo gostando de mim, eu fico assustado! Não sei se faço tanto por onde, e se faço, estou assustado com o comportamento médio das pessoas porque é aí onde me vejo: uma pessoa de hábitos sociais medianos.

Não estou criando caso, essas talvez sejam as questões superficiais dos últimos anos. Tantas outras estão por vir, tantas outras não posso dizer. É aí que vem meu susto, a dor que traz o descanso ou a potencialidade do descanso após tão prolongado tempo. Há um volume inimaginável de questões que me depararei, que refutarei, mas que no fundo, aceitarei. Talvez o descanso seja pra confirmar: eu sou eu, agora é hora de viver ou, como tenho pensado insistentemente nos últimos dias e semanas, é hora de surfar na onda do meu pensar.

Ouça essa música sem pensar em amor (ou sob algum risco, pense!): https://open.spotify.com/intl-pt/track/7K5rZnp7C07SVotXqMaKFp?si=b863f7b820f140d3 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Sobre as férias mais aguardadas da minha vida

 Hoje não é sobre um grande amor que perdi, nem sobre um grande amor que surgirá, nem sobre cigarro, nem sobre a empolgação de ter consciência de ser como sou, nem sobre a solidão, nem sobre a solitude, nem sobre exercícios físicos, karatê, capoeira, natação, ortografia, neurociência, matemática, jurisprudência, lata vazia de refrigerante.

 Eu estou cansado.

Hoje foi minha última reunião do ano, do meu primeiro ano de pós-doutorado. Desde que defendi o doutorado, não parei - estava desempregado, era problema social, dava aulas particulares, terminei tese, continuei trabalhando na pesquisa, eu, enfim, não parei.

Durante o doutorado, um período extremamente intenso de pandemia já no terceiro mês, depois um relacionamento em tão poucos meses seguintes, que evoluiu rápido e em pouco tempo estava morando junto, com uma criança a quem tive que aprender (e que em vários momentos, deixei a desejar como referência), uma pesquisa a realizar, tese a escrever, de repente, novos trabalhos pois a bolsa era curta, e mais trabalho, mais trabalho, preocupações doutorais e da vida [de quem é pobre], eu não tive férias. Saí uma vez, foi uma bela de uma pausa, um belo de um momento, mas naquele momento, não deu tempo de descansar. Depois término, fim de emprego, pressão da tese, coisas dando errado. A depressão bateu, segurou, agarrou e assim seguiu até bem pouco tempo atrás, bem depois da defesa. Sendo justo, foi um único período de férias na metade dos longos 4 anos e meio, mas que mal deram pra tirar o desgaste.

Antes disso, mestrado. Não tive férias de novo, mas teve término no meio, dessa vez com outra namorada, mas essa a dor foi mais branda, teve problemas de saúde na família, os amigos que fiquei tanto tempo sem ver, não tive férias mas me reconectei.

Antes do mestrado, eu não tinha grana pra nada que não fosse um bar de rock, mas tudo bem! Nessa época eu não estava desgastado. 

Devo dizer que quando defendi, saiu um peso das costas, mas não consegui descansar, foi um período trágico. A depressão tomava conta de mim nos instantes em que não estava com os outros. Devo tirar uns dias pra repensar o mundo, repensar a vida, espero que repensar tudo da melhor forma possível. 

Este não é meu texto mais bonito, nem bem escrito, nem nada. É só um desabafo pra quem quer que queira ler, seja outrem, seja o Denis do futuro. Vou sumir das redes, espero, por um tempo. Eu mereço a paz que tanto me espera pra voltar com tudo numa verdadeira nova versão. Não vou pro tudo ou nada, mas espero me surpreender com o que vem após esse período.

Obrigado, você certamente foi importante nesse processo. 

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Mas tá tudo bem

Não sei amar raso,
por isso me atraso,
nado e me arraso,
enxugo e passo,
caminho e laço,
cavalo e cavaco,
com ou sem corda,
porque se batuca,
incomoda e machuca,
mas é a vida.

Por isso, repito:
não sei amar raso,
nisso me atraso,
nado e me arraso,
mas é a vida.

Você se convence,
eu fico feliz.
Que dor é o amor
de quem sabe amar
a vida e os objetos,
o mundo e as relações,
as cores e os sabores,
ciências e etc,
verdades e mentiras
na ótica do discurso.

Que viés me consome,
de ser eu em meu nome,
mas assim mato a fome,
desse mesmo amor cafona
que parece egoísta,
mas não sei amar raso
e nisso me atraso,
vou, nado e me arraso,
mas é a vida.




segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Há algo mais

Eu me arrependo de me expor. Essa falta de quem me apoie, me entenda, me compreenda é tão dolorida, mas ao mesmo tempo não dá pra buscar alguém, não dá pra encontrar, só dá pra viver. No fim, eu aprendo um pouco mais sobre o mundo e sobre mim, e me apoio, me entendo, me compreendo. 

Se às vezes parece que me faltam amigos, às vezes o que me falta é apenas colo com tensão sexual latente. Um abraço, uma palavra amiga, uma palavra de orgulho de quem quer compenetrar na minha alma, com todas as doses de amor possíveis. Às vezes a falta é de um amor que sente sem limites, a ponto de compartilhar das ansiedades, dores, objetivos e frustrações. Pode ser que hoje seja assim que me sinta: deslocado, buscando motivos pra viver. 

Tenho medo de viver assim, sem muito propósito, porque adoecer poderia me levar mais fácil. Sinto que essa tristeza existencial vai consumindo meus neurônios, cardiomiócitos e pneumócitos. Seria caso de largar o cigarro, que é plano, meta, mas e daí? Sinto-me perdido, tentando vencer a inércia, não tanto pela dor do antigo amor ausente, mas dor de ter ausentado meu coração de sentir por alguém. Nesse ponto sim, vem a imagem dos meus queridos amigos, talvez eles sejam o que me mantém firme, mas não parece bastar. 

É sobre construir a vida: eu havia feito uma bela construção que ruiu e já está loteada - espero que sem o risco de trazer farpas ou pregos ao vento, mas e agora, o que vem? Se sou o homem que dizem que sou, se trago tão boas vibrações por onde passo, por que tanto sofrimento? O que fiz pra merecer essa angústia descamante que transcende o meio físico que abriga minha existência? É minha mente se perdendo de mim, meus sentidos confusos, minha dor no pescoço que não há travesseiro que cure, minha lombar que anseia pela dor do exercício físico que foi se perdendo.

Vale tanto a pena assim a sobriedade? É um sentimento tão inóspito que o que me resta é um pensar infantil, um pensar moral que me tranca o agir, que me torna tão quadrado e, enfim, só. Um a um dos que eu sempre mais gostei foram se distanciando. Agora eu me ponho nessa busca de quem possa estar por perto de maneira mais intensa, e com meu jeito infantil de ser, me abro, me exponho, jogo pra fora tudo isso que escrevo, e depois sou recebido com uma dose agressiva de resposta. Tão hostil, com tanta indiferença, provavelmente é o que mais dói.

Eu não pedi pra ser como sou, eu não pedi nada, eu só fui vivendo e não soube me preparar pro momento em que descobrisse que tudo o que falei, fiz e senti foi reflexo de uma assimetria com o mundo, que pra mim nada havia de diferente. Mas era. Agora tenho poucos (mas tenho!) em quem me espelhar, a quem observar, mas de que adianta? Buscar viver anestesiado com o queixo inchado, olhos disfuncionais e o cinturão dos pesos pesados? Pra quem será esse título se não para os outros? Pra mim o que fica? Fica a angústia que não me deixa fugir pras montanhas, que não me permite ser um ermitão, pois, é óbvio!, eu dependo da atenção alheia.

Parece que é um poço sem fundo, e solitário, sem as vozes lá em cima dizendo "vou buscar ajuda", "vai ficar tudo bem." Posso dizer que é ansiedade o que me aflige, mas lendo e relendo toda essa honestidade intelectual que me põe em risco, vejo que não é só. Há algo mais.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Resolução e paz

A maior desgraça que já me ocorreu 
tem nome, tem endereço,
só não tem apreço
e, sinto muito, já deu.

Não sou poeta, sou sonhador,
é diferente!
Componho com dor,
dor de amor ausente.
Ela nunca perdoou minha rejeição
e me rejeita com indecisão.

De que importa agora?
Só quero paz e resolução,
e nada de dar atenção
pra quem me dá bola fora.

Aí os que se importam reclamam comigo 
por eu ser intenso na desilusão.
Não percebi que só pensava no próprio umbigo,
mas ela deixou evidente em primeira mão.
Agora dirão que sou pobre coitado,
E o plano é curtir a vida adoidado.

Felizmente tenho autoconsciência,
mais de trinta e duas histórias,
e que ela tenha ciência,
que não foi baixo o número de vitórias.

Um mundo novo se apresenta,
terei humildade para vivê-lo.
Vou a pé ou a camelo,
pra aproveitá-lo em marcha lenta.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Sendo

Eu te convido a ler este texto que consegui capturar um momento singular de transição de estados mentais de inquietação para superexcitação. 
 
Às vezes consigo proferir as palavras mais degradantes em momentos de solidão e tristeza que leio e me pergunto: quem é esse cara falando isso?

O problema é essencialmente acreditar que eu estou tão só ou tão triste. Sou um ser humano rodeado de bons amigos e, por fazer um pouquinho a mais que o mínimo, um homem interessante que atrai mulheres interessantes. Fato é que conheci uma mulher que me deixou as marcas severas que um grande amor deixa quando acaba e quando se insiste em tentar algo que já acabou. Honestamente, ela soube se lidar melhor que eu.

Me contaminei a mente com ideias tão libertárias que terceirizei o fogo e o ardor para lá também. Tanto autocontrole que perdi a oportunidade de viver em prol da excelência que a minha mediocridade supõe que eu deva ter. É um saco, trabalho de retorno à vida, ir aos poucos...

Espera aí! É difícil pois sou homem de beijos, de poesias, caminhares de mãos dadas no parque, sexo ao acordar, no vão da escada e antes de dormir. Sou homem que vê beleza ou inquietude por ranhuras na mesa de madeira. Não vou olhar pro asfalto sem enxergar simetrias na aleatoriedade das pedras que ali se encontram. Sou intenso no sentir e sinto pendências por amores passados. Dos que amei, dos que me apaixonei, dos que gostei, dos que maravilhosamente esculpi minha alma de prazer por meses, dos "oi, poesia, tchau e bênção". 

Que aterrorizante é a sensação de ter adormecido minha sexualidade ainda que com raros encontros casuais sem cor, sabor ou cheiro. Os encontros que me dividi em porções de pena: minha e dela, que não corresponderam a vivenciar minha sexualidade, mas um teatro de atores cansados, com máscaras sorrindo e uma sexualidade pobre de quem se contenta com um orgasmo barato numa cama suja de profanação do belo.

Terceirizei, sim, o orgasmo à minha contemplação do sujo, violento e degradante cinematográfico. Paguei e pago os preços por isto, ainda que caminhe para longe das minhas antigas algemas, já que sua vista me fez sofrer. Eu aprendi a não olhar pra trás, aprendi mesmo!, mas como dói quando pega pra doer. No inverno, são os ossos que doem; na primavera, o corpo fadigado e inoperante.

Pode parecer que eu estou querendo falar sobre o despertar, o "tão aguardado" despertar, mas não estou. É contemplação do momento, do momento de autopercepção. Eu sei sentir borboletas na barriga e não faz muito que senti, mas elas voaram tão logo percebi que não pudemos seguir viagem. Acho que eu expulsei as borboletas dela, justamente por esse vazio, que não é cérebro, não é pinto, não é vagina, não é seio, é vazio!, é intumescência do fracasso!, é dor que desatina doendo. Fadiga? É fadiga sim! Cansaço, exaustão mental dos tantos anos rodando a manivela, dando voltas no oceano das inquietações, mas sem mergulhar, só vivendo à margem do medo de existir. E é tudo tão cascudo, tão rígido e seco, tão intrincado, tão morfologicamente abstrato, que é ruim de escrever sem fazer careta.

Não há despertar que não conscientize a plenitude. Há o pleno! O barato do pleno é que não há dúvida, não há parede, obstáculo ou cisão. O pleno concede paz imaterial, concede o riso hippie, autoriza os passos mais distantes, revigora a potência do saber, traz a inocência da alma que consegue, sim, consegue ver com paixão as sutilezas do vil e do que há de mais inóspito à compaixão. O pleno é o meio que não tem início nem fim. O pleno é o jogo de dardos que não precisa acertar num alvo, pois tudo é acerto, pois é desprezível a competição, é desprezível o "fazer melhor". Aceita-se, bebe-se e vive-se.

Como então eu poderia me queixar da solidão e da tristeza, se são cacos, recortes, rituais mal sucedidos de uma falha na observação constante de si? Eu posso me conectar ao mais profundo eu, estando em distância infinita de qualquer outro ser, e mesmo assim não ter qualquer sensação ruim. Isso porque entre eu e 'o eu' impera o vazio, mas distorcendo, cria-se essa falsa noção de que entre o que sou e o que enxergo que sou há uma ruptura, uma falha. Existe distração, não disformidade. E de onde vem? Vem do desejo de corromper-se, de afastar-se da própria previsão, só para mostrar para uma plateia de cadeiras que consegue ser imprevisível.

O aleatório não é sobre ser imprevisível, sua beleza não é esta, são suas relações, é a concepção de que não há controle sobre o ato, mas que o ato pode se observar e pode não se observar, concomitantemente, enquanto se pensa a respeito. É com isso que alinho minha noção de plenitude; onde o pleno transmuta por cenários que se prostram e não há mais que uma única certeza: há algo e talvez esse algo não exista. É sobre isso minha tatuagem.
 
Reconheço-me como o que sou: um ser. Minha pequeneza e mediocridade perante o tempo, o espaço e os outros seres é valiosa, é minha arma secreta contra mim. Agora no que tange ao meu imaginário, sou a realização do processo canônico que me representa, sou a perfeição, sou o devir, sou o objeto que transcreve na história as carícias que faço de contemplação pelo viver. Sou, enfim, a busca e o resultado da busca, a serpente e sua vítima fatal, sou o ardente desejo de firmar-me além do que meus olhos podem ver. Sou Denis.