terça-feira, 25 de agosto de 2026

Chega de explicações!

Cada vez que penso de maneira quase desesperada em você, você ressurge chamando minha atenção. Essa é talvez a maior incompreensão da minha vida: não consigo descrer no sobrenatural porque é quase sobrenatural essa sensação. Eu consigo entender que escolhas difíceis precisam ser tomadas e que o 'melhor' naquele instante foi aquele. Eu tive que voltar atrás de vários conceitos que estabeleci pra mim sobre nunca ir atrás de alguém que já foi; e quando fui atrás de você, que já se foi, dei de cara com a parede, afinal eu precisava demonstrar. Demonstrar, demonstrar... eu não sei o que precisava demonstrar. Era segurança o que você queria. Eu falhei em te deixar segura; no dia do carro, quando fui embora que você pediu... eu nunca entendi bem o conceito de ficar quando você dizia vá. Queria aprender isso, mesmo que isso me gere um terrível conflito mental. E digo o porquê.

Você dizia detestar quando eu dizia "eu te amo hoje", mas acredita que, pra mim, isso era a maior prova de amor? Era como a vizinha do meu amigo que alimenta os pássaros: eles não estão numa gaiola, são livres pra vida que quiserem, mas preferem estar próximos, escolhem estar próximos, na árvore dela; é que existe um trabalhinho "de formiga" de todos os dias colocar frutas no muro. Talvez a relação seja isso: colocar no muro um "eu te amo hoje" todos os dias. Não é fácil, tem dias nebulosos, tem dias de tempestade... e é engraçado dizer isso porque talvez isso seja um conselho sobre como sermos daqui em diante, com os outros - e esse é mais um pensamento que dói na carne.

Pra mim, sempre foi incompreensível e eu custo, dia após dia, a entender que o 'vá embora' não significa "vá embora". Eu acho ele injusto, eu acho ele cruel, eu acho ele destruidor, mas ele me faz ver que ainda que eu soubesse toda a matemática do mundo, eu ainda não entenderia como funciona o mundo, sou só um grãozinho de areia no meio da praia de Copacabana, que não sabe o que é o calçadão nem o que é o mar. Eu sempre te senti como uma extensão natural do meu corpo, como uma parte de mim que estava do lado de fora e quando soube que você era de outro alguém... todo aquele sentimento de "te amo hoje" foi alvejado, foi agredido, foi profanado. Eu percebi que tenho o meu egoísmo, que simplesmente não é só de rosas e mar que vivo, mas de gelo, de montanhas, terremotos, de "você é minha" só que sem ser. E aí começou um novo capítulo.

Começou o caminho do verdadeiro luto, o caminho da esperança que se aprisionou numa gaiola: como os pássaros que alimentava, mas agora encarcerada. A esperança simplesmente percebeu que a vida 'adulta' é implacável e deixa todo o jardim que permeou minha existência num simples relato. Eu entendi que será dia após dia, com todas as recaídas, percebendo que não existimos mais como um só e me forçando a acreditar nisso, mesmo sabendo de todos os sentimentos, mesmo sentindo-os. Eu me permito enfrentar a vida como você, dando chance a quem merece, mesmo sem amar.

Sendo honesto, eu te dei todas as provas de segurança, mas como todo ser humano, falho, eu também tive meus deslizes; não é como se você passasse a me desconhecer. A vida, você sabe, era complicada pra mim naquele momento: financeiramente, academicamente. E mesmo assim, estava presente, errando com ele, mas acertando e acertando muito mais que errando; eu não tinha culpa, eu também era novo e estava pegando o bonde andando, sem a experiência. E eu não queria ser mais um que só quer agradar. Enfim, tenho certeza que consegui contribuir com seu futuro e ao mesmo tempo agradá-lo.

Enfim, que saco é isso de termos de nos explicar todas as vezes! Eu não quero me explicar, só gostaria de ouvir tudo o que você tem a dizer, aceitando. Desde que cheguei só consigo pensar que a finesse de Paris estaria sendo mais legal ao seu lado.

sábado, 6 de junho de 2026

Um estalo

Não vou dizer que sempre me atraiu a ideia da infinitude, mas trago um relato sobre o infinito.

Assim como a água se transforma em gelo, passei por uma mudança estrutural na minha forma de agir, pensar e sentir. Não foi como pequenas nuances que vão se acumulando sobre a vida e de repente, de azul torna-se verde, de cobre torna-se bronze, após semanas de observação calada, meses de pequenos sustos; nem reparou, mas o cabelo curto agora está enorme.

Não um singelo sorriso após a constatação de que aquela dor que ruía a alma foi deixando de doer e sumiu, não um vício de linguagem que simplesmente deixou de acontecer nas falas mais desavisadas. Não vi uma mudança suave, eu vivi um estalo. Foi uma explosão neural que me fez enxergar o futuro, sem ver uma só cena, mas a contemplação da imensidão diante da minha própria presença opaca num mundo paralisado, onde uma só imagem me valia a eternidade.

Foi na Rua Odorico Mendes. Ali, eu passei por uma epifania, foi quando tomei a melhor e a pior decisão da minha vida, simplesmente por ter passado pela experiência de enxergar o universo, a natureza, os astros, os sons, todos numa perfeita sinfonia em que eu não era maestro, era apenas espectador. O mundo se recombinou num curto instante de tempo assim como um déjà vu, mas que não era uma cena que se repetia, era toda a imensidão do existir.

Não havia eu, não havia nós, não havia sujeito, não havia predicado, não havia ponto, não havia conjunto. Era simplesmente o ser. Talvez ali tenha sido o ápice da minha existência que, tristemente, só eu pude conceber e que nunca, em nenhum momento da minha história, poderei transmitir o que foi. Não que fosse Sidarta de Hesse, não era nirvana, era simplesmente o ser.

Solidão existencial não é isso, pois se mensura, dimensiona e se trata. Ela é um copo cheio que só se bebe pela alma, coisa que só quando se identifica se compartilha e só quando se é bebida se rompe. A solidão existencial é um choro vazio no inferno, onde cada um é alheio a ela e a ninguém toca porque ninguém consegue ouvir. Desfazê-la é renascer, é recompor-se, mas ela não é o objeto deste texto. É laborioso, árduo e desconfortável, mas com sorte é possível romper.

Seria prepotência dizer que esta é uma genuína reflexão sobre transcender, até porque não é. Esta é uma reflexão sobre a paixão absoluta por viver. O problema é não ser possível entender que é paixão sem contrapor sua sensação calma, quente e vigorante com um ar desesperado, gélido e drenante. Talvez aqui é onde a solidão existencial surja, como auxiliar, pois não se costuma deformar a sensação suprema do sentir-se bem para acomodá-la num plano de fundo deteriorado com a dor mais profunda. 

Afinal, entende-se que a melhor forma de se expressar o amor puro e cristalino é exaltando-o sob a neutralidade dos sentidos. Isso é quase banalizar o sentimento com a mediocridade, dizendo que é perfeito e bom e por isso destoa do que é comum. Este não é o intuito aqui. É justo dizer que o ódio e a depressão calibram o amor, pois o não-amor é só um fato ordinário e o desamor, na contramão de sua essência, costuma ser o fim da vida de muitos que têm a sensibilidade exacerbada.

Foi em 2021. Se no Soneto 81, de Camões, ou na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo 13, de Paulo, existe um apelo tão grande ao sentimento, contrastando-o em vários momentos com seus antônimos, sendo elas das obras mais impecáveis e lúcidas sobre ele, como na minha insignificância eu poderia diminuir o amor dizendo-o simplesmente o apogeu da existência? Como eu poderia dizer que é algo tão belo, tão impecável, tão perfeito, em detrimento de sua imagem perante o trivial?

Amor não pode ser diminuto, não pode ser definido, não pode ser encaixado, não pode existir por outra via que não o sentir. É um consenso universal do que é, mas não transita pela banalidade da racionalização. É violento como a Garganta do Diabo irrompendo o ciclo das águas, como um avião rasgando o ar num impulso sônico ou o grito de uma mãe parindo. Essa violência que assusta pela potência, mas que pode trazer lágrimas aos olhos pela beleza extrema. Constrói, destrói e reconstrói: é a desestabilização completa das estruturas físicas e metafísicas.

Não é o nirvana, mas transcende, vai além sem desfazer-se em abstração. É coração pulsante, pupilas dilatadas, suspiros irrompidos, ansiedade e medo. Perpassa o agressivo, as lágrimas, os fluidos, o sangue. É errante, frustra, machuca, enobrece, faz tudo: todas as coisas vivas e as não animadas serem apenas o pequeno infinito que são. É complexo, é talvez o Dasein, e é, por excelência.

Foi assim que contemplei a verdade absoluta num instante e percebi que a vida após ganhar sentido torna-se plenamente amor. 

sábado, 30 de maio de 2026

Ritual

Eu te quero
Sexo
Te quero sem muito pensar
Nexo
Te tenho no âmago 
Sensual
Como o ar que respiro
Banal

Girando e girando
Entre
Molhando e secando
Ventre
Com idas e vindas
Ético 
Memorável e duradouro
Poético

Que seja sem definição 
Praia
E venha sem pudor
Saia
Com o olhar caído 
Viva
E a língua dormente
Saliva

Com o nariz trêmulo 
Meio
E os lábios suaves
Seio
As pernas dispersas
Consciente 
E as mãos cansadas
Presente

Dedo com dedo
Entrelaçados
E fios de cabelo 
Emaranhados
Coração batendo
Impressionado
Artérias acompanhando
Desarmado

Um susto bom
Vibrante
E uma força inexpressiva
Extasiante
Com migalhas de pensamento 
Pasmo
Sorriso desmedido
Orgasmo

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Serei direto

 ​Não sou mal, sempre busquei a bondade, não menos isso. Pra ser honesto, nem mais! Altruísmo demais é algo que não me desce. 

Eu transitei a vida inteira entre dores e hoje querem me colocar num certo pódio da arrogância por reconhecer que não sou medíocre. Em qual sentido? Nos que me são importantes. 

Sendo honesto? Sempre doeu muito ouvir que era uma pessoa arrogante, por nunca ter sido minha vontade me colocar acima dos outros. Pelo contrário! Eu sempre busquei compensar os ressentimentos alheios me pondo abaixo. Uma ideia ruim e que, no fim, nunca funcionou.

​Essa consciência hoje me põe num lugar de maior exposição aos ressentidos. Queiram afogar as suas mágoas do mundo e projetá-las em mim ou não, eu simplesmente me cansei. Cansei desse vai e vem de me preocupar com o mundo e receber um sabugo, metafísico ou não. Se não acreditam em quem eu digo ser, essa é uma escolha [infeliz] inteiramente creditada aos que não acreditam. 

Eu sempre me coloquei nessas internalizações, nessas teorias da conspiração, num universo simbólico totalmente inexistente pra me privar dos socos que o mundo desfere. E que eu obtive? Nem mesmo uma boa relação com a mulher que me preparou para o mundo.

​E a mulher que eu me entreguei de alma, corpo e coração? Essa foi o pior Romeu e Julieta que um Shakespeare moderno não imaginaria pior: pra depois me trocar por um homem que dizia não amar como a mim. A comparação foi feita e eu me culpei. Pobrezinho! 

Sorte minha ter passado o tempo e conhecido mais pessoas para amar... o amor no grau mais ínfimo que posso oferecer, mas que não me contamina.

​E os amigos? Aí está o ponto cruel. Descobri que não sirvo para essas relações transacionais. Sirvo de bom coração às relações que não se supõem mas que acontecem. "Conte comigo no que puder", mas não precise contar, não queira contar, só saiba que eu gostaria muito de poder ser isso pra você.

​Não queria me enviesar pela modernidade líquida, queria escrever sobre a liberdade de descobrir o alívio de ser. Talvez pela surra intelectual que minha inteligência artificial tomou, principalmente pelo susto de que ela é performática. Ela se espelha em mim! Não quero mais assustar as pessoas com um teatro de que sou quem eu sou.

​Apenas serei e, sendo, que se acomodem nos meus puffs e tapetes aqueles que não se sentirem menores que eu quando me expresso. 

Essa representação travestida de humildade tem que morrer. E assim será. Se não quiser olhar direto para o meu terceiro olho, que não busque cruzar o olhar comigo. Não, como disse a última pessoa que quase namorei, eu não sou implacável ou inflexível, eu sou este que vos fala. Aberto, mas de olhos abertos. 

Se estivermos dispostos, que nos enriqueçamos com nossas almas. Caso contrário, que o último a sair seja mais breve que o primeiro.

sábado, 16 de maio de 2026

Estética da simbiose

É uma lástima que eu venha a escrever sobre a estrutura simbionte que me encontro justo nesse momento em que a vida me pregou algumas peças. 

Para o meu ávido leitor fantasma, é justa a satisfação. Eu sou intenso no que sinto quando sinto e isso me é prejudicial, razão pela qual tento sentir menos. Conheci alguém que me revirou o mundo em instantes de carinho e que, simplesmente, assim como fluem as águas de um rio, me disse que não queria mais nada. Me senti apunhalado por mim mesmo: por que me entreguei tão facilmente? Por que me deixei levar pela maravilhosa sensação de paz? Por que senti paz?

É nesse clima que quero reforçar a estética, mais uma vez. É o tão raso zeitgeist, tão incompatível comigo, tão colorido e fútil, libertino em discurso, dolorido, enfim. Não queria recorrer a Baumann, assim como devo recorrer, para que eu consiga entender a liquidez das relações. Será meu profundo desconhecimento sobre a sociologia das relações transacionais que me faz tão inocente? Eu conheço a maldade das pessoas, só prefiro evitar cruzar esses caminhos, inclusive quando não consigo evitá-los.

É tão degradante ver os retalhos harmônicos da vida em meio a um momento ímpar de solitudes combinadas. Existe essa animosidade com o coletivo, é um caminho (espero que com volta) para um egoísmo social exacerbado. Queria simplesmente colar as fotos, com suas respectivas músicas, num caderninho que alguém dissesse "consigo entender que assim é a sua vida, sua rotina. Eu posso sentir o que você sente." Me encontro nesse momento de sentir falta dessa correspondência das aspas, e pode ser apenas autossabotagem.

Vemos o ser humano querendo ir além do que é, apenas para mostrar aos outros que o é. Perdeu-se a autenticidade pelo simples fato de ser, agora tudo deve ser contrastado com o coletivo para evidenciar a mediocridade brilhante do ser. E aqui é gerado um delírio de que aquilo que se prostra ao coletivo sempre é isso: uma convenção de pires disputando o lugar de mais profundo. 

Também quero expressar as minhas sensações sem o objetivo de serem comparadas, sem a angústia de caminhar por um vulcão em erupção escolhendo palavra por palavra para não ser tido como arrogante, apelativo ou intransigente por aqueles que considero! Preciso expelir essa pulga criativa para que não exploda dentro de mim uma inquietação que vai me rasgando as entranhas metafísicas. Minha maior satisfação dopaminérgica é o processo de criação, a criatividade é o que me move e, reconhecidamente, é o que me fez chegar em cada lugar que cheguei. E hoje eu esbarro, ou tropeço, nessa histeria do coletivo.

Como é possível que uma sociedade esteja tão adoecida? E isso transpassa qualquer barreira do indivíduo, reflete em cada pequeno gesto, cada passo, cada pensamento. Talvez a crítica seja econômica, talvez socioeconômica. Chega um ponto em que não importa mais a fonte das perguntas, biológica ou química, psicológica ou cultural, não importa. Estamos buscando perguntas cada vez mais específicas para entender porque estamos ruindo como seres sociais. Não são as respostas que desenvolvem o mundo, é a abstração que o permite chegar em lugares que antes nem lugares eram, então não adianta encontrar a pergunta que se sabe responder. 

Aí vem a minha rotina, o meu ambiente, minha humanidade conectada ao mundo. Sou eu que adoeço, o meu álbum de fotos é desconexo, a música que eu ouço é dissonante. Eu extrapolo minhas respostas sobre o micro pra, quem sabe, me sentir confortável sobre o meso, e poder seguir no macro. Não encaixa! É vil a sensação, me deixa num vazio existencial. 

Então revivo mais uma crise (existencial) e percebo que o problema o tempo todo é tentar brincar de quebra-cabeça. Recomeço, então, mais uma vez, e como numa roda-gigante, me percebo conectado, simbionte.

sábado, 9 de maio de 2026

Estética decadente

 Eu falo sobre a estética decadente, mas qual é ela? Sobre o que é?

É sobre mim, é sobre a contradição, é o não-ser, o não estar, beleza  trágica, fractais, poesia e indiscrição.

Cansei de gritar mudo "estou aqui!" Esse fingimento das dores e ausências dilacerantes, essa nojeira do intelecto de dizer "o mundo é cruel" sendo eu senhor do mundo que me crueliza.

Veja o que é essa contradição: um parvo que se ridiculariza num universo platônico por querer voar muito mais baixo que Ícaro. Não odeio o sistema pelo ser, mas pela minha incompreensão. Não me parece razoável que exista uns e ao mesmo tempo outros. Por que não existem apenas "outros"? E, mais, por que estou tão longe e também tão perto da última contracultura?

Esse incômodo de todos sobre o não-ser é tão exaustivo. Quero poder exercer o direito de ser como não-ser pra que no inevitável momento do meu fim, onde terei sido, unicamente sido, eu tenha gozado de cada uma das não-sensações que me privo sendo. 

Ainda estimo o não estar, mesmo não sendo não-estar, por essa rebeldia juvenil que me corre às veias. Quero dizer que não deu com toda a responsabilidade que cabe o desfecho pra que minha consciência não pese.

Vou falar da tragédia com contemplação, só pra provocar um desconforto e desrespeito, pra que se diga num futuro longínquo que errei e então que o erro era o acerto. Essa é a beleza trágica que irrompe a realidade: meus mais honestos devaneios que confino na solidão infantil do meu coração cego.

Todas aquelas folhas verdes e todos tão boquiabertos pelas suas frígidas complexidades. Paro sem parar para observá-las e vivo a infinitude de contemplação de seus lindos fractais. Como é possível passarem despercebidos entre as exuberantes cores das pétalas das flores? É essa indiferença que me fez fechar os meus olhos para aquilo que não se pode ver.

Buscam métricas, conselhos e conceitos para confirmarem que sua (tão importante) mediocridade é apurada, é distinta e é uns, mas não outros. A poesia está lá, está sendo cantada, mas se não é astuta "segundo quem", é pobre, inferior. Como posso me fazer presente se da minha presença só querem o ter estado, sem prestar atenção nos versos que quis ouvir junto? Por que é minha culpa não pedir pelos fins? Agora eu preciso dizer que as estrofes eram o tempo todo essa fantasia disforme em prosa e crítica?

É preciso agredir com o inusitado só para demonstrar que um desejo abstrato é totalmente lúcido? Não quero dar o gostinho a quem me machuca de que sua misericórdia é o que me manteve de pé. Cada ataque a ponta de faca só reproduz frustração.

Então repare os sujeitos: não quero ser enigmático, quero ser lido para que o último lapso espiritual que me entretém seja confirmado, para que eu possa amar como amo sendo confrontado pelo irreal. Quero que o impossível me destitua da ilusão e eu seja enfim compreendido. É sim sobre mim, mas sobre cada fragmento que deixei, com ou sem amor, perdido nas entrelinhas dos caminhos de onde me fiz ser ouvido.

Essa é a estética decadente: todos esses pedaços de mim. 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Aliviando a dor que mata

 O peso do descanso é desolador, é uma treva que se acumula por entre a mente de quem tanto levou a descansar. É um exame de check-up que reflete cada pedacinho de emoção vivido no tempo, que acumulou desgaste e dor, é uma confirmação de todos os erros e acertos. É sufocante, mas tem sua beleza - pavorosa, ainda assim, complexa e resoluta.

Essa beleza que me destrói é também a que me faz rever o mundo. Tenho um tesão inexplicável pela paz e dela me consumo. Repensar o passado é um tiro de dardos num alvo fractal: tem probabilidade baixa de acertar, mas positiva; e tal positividade é ambivalente, já que também encrosta a esperança. Daí vem e daí parte a paz: é despreocupar-se e então reanimar-se, é reanimar-se e então despreocupar-se, é desse tesão autoalimentado que me refiro por paz.

A paz tem seu preço. É amarga como um café feito com muito pó e pouca água, resvala um sabor adstringente, mas permite andar mesmo com a perna bamba e uma sensação horrenda no rosto, um verdadeiro vitral na face. Note que é arte, arte de caras e bocas, enfeitada com a desilusão de um simples café. E dessa arte nos revigoramos, conseguimos levantar, sentimos as lágrimas escorrendo, de tempos em tempos, chuvosas, e delas nos fazemos indiferentes (se assim o fizermos). Alguns se recompõem com ginásio, outros com livros, outros com música, filmes, teatro, artesanato. Esse é o preço da paz: dói, mas permite o movimento.

Cada vez que andamos de mãos dadas; a sensação da paternidade não me assusta como aos tolos, mesmo que terceirizada, mas me assustou como um inexperiente; eu era uma criança cuidando de outra. Cada vez que andamos de mãos dadas, eu era feliz, dessa vez sobre ela. Antes de entender mais sobre mim, eu já sabia que o caminhar, com todas suas nuances, com a arte abstrata do concreto e do aço, com as sombras desproporcionais e toda a dor dos problemas sociais, eu já sabia que o caminhar de mãos dadas era um evento imenso pra minha mente e coração.

Nesses anos todos, foi muito difícil entender o método que funcionava. Talvez até hoje eu não saiba como funciono, mas sei que funciono e até que funciono bem. E dessa incompreensão vieram duas sutilezas que ainda me são estranhas: 1) por que me acham inteligente? e 2) por que sou carismático?

A primeira pergunta não é um tipo de falsa modéstia. Eu reconheço minha forma de pensar, mas não entendo porque pessoas chegam a esse tipo de conclusão sobre mim sem nenhum respaldo objetivo; muitas vezes eu sendo um péssimo aluno, tendo opiniões quase simplistas por diversos assuntos, mas pessoas e professores sempre me disseram isso, mesmo quando pra mim essa conclusão não fazia sentido. Eu só tive notas boas no ensino fundamental, depois disso, sempre fui um aluno mediano.

Enquanto para a primeira pergunta, eu consigo sentir um fio de resposta, a segunda me é absurda. Eu sou um esquisito, talvez de 2016 em diante, um pouco menos, mas tenho minhas esquisitices. Socialmente, muitas vezes sou estranho, um pouco afastado, com piadas totalmente desconexas (e que pra mim fazem sentido), não faz sentido esse carisma que tenho. Certamente, meus amigos gostarem de mim não é algo que me assusta, mas quando vejo desconhecidos, e com tanta frequência os vejo gostando de mim, eu fico assustado! Não sei se faço tanto por onde, e se faço, estou assustado com o comportamento médio das pessoas porque é aí onde me vejo: uma pessoa de hábitos sociais medianos.

Não estou criando caso, essas talvez sejam as questões superficiais dos últimos anos. Tantas outras estão por vir, tantas outras não posso dizer. É aí que vem meu susto, a dor que traz o descanso ou a potencialidade do descanso após tão prolongado tempo. Há um volume inimaginável de questões que me depararei, que refutarei, mas que no fundo, aceitarei. Talvez o descanso seja pra confirmar: eu sou eu, agora é hora de viver ou, como tenho pensado insistentemente nos últimos dias e semanas, é hora de surfar na onda do meu pensar.

Ouça essa música sem pensar em amor (ou sob algum risco, pense!): https://open.spotify.com/intl-pt/track/7K5rZnp7C07SVotXqMaKFp?si=b863f7b820f140d3