sábado, 9 de maio de 2026

Só pra dizer que é poesia

Logo agora que tenho um certo futuro,
Às margens de toda minha imaginação
Ressoa quase como um furo,
Irrompendo realidade e ilusão.

Somos um espaço improvável,
Sendo caótico e irrefutável,
Antítese e julgamento,
Espelho, experimento.

Dessa forma fico lisonjeado,
Encontrando o oposto da solitude,
Numa dança que reproduz inquietude,
Incendiando com o meu sapateado.

Só pra dizer que é poesia.

Estética decadente

 Eu falo sobre a estética decadente, mas qual é ela? Sobre o que é?

É sobre mim, é sobre a contradição, é o não-ser, o não estar, beleza  trágica, fractais, poesia e indiscrição.

Cansei de gritar mudo "estou aqui!" Esse fingimento das dores e ausências dilacerantes, essa nojeira do intelecto de dizer "o mundo é cruel" sendo eu senhor do mundo que me crueliza.

Veja o que é essa contradição: um parvo que se ridiculariza num universo platônico por querer voar muito mais baixo que Ícaro. Não odeio o sistema pelo ser, mas pela minha incompreensão. Não me parece razoável que exista uns e ao mesmo tempo outros. Por que não existem apenas "outros"? E, mais, por que estou tão longe e também tão perto da última contracultura?

Esse incômodo de todos sobre o não-ser é tão exaustivo. Quero poder exercer o direito de ser como não-ser pra que no inevitável momento do meu fim, onde terei sido, unicamente sido, eu tenha gozado de cada uma das não-sensações que me privo sendo. 

Ainda estimo o não estar, mesmo não sendo não-estar, por essa rebeldia juvenil que me corre às veias. Quero dizer que não deu com toda a responsabilidade que cabe o desfecho pra que minha consciência não pese.

Vou falar da tragédia com contemplação, só pra provocar um desconforto e desrespeito, pra que se diga num futuro longínquo que errei e então que o erro era o acerto. Essa é a beleza trágica que irrompe a realidade: meus mais honestos devaneios que confino na solidão infantil do meu coração cego.

Todas aquelas folhas verdes e todos tão boquiabertos pelas suas frígidas complexidades. Paro sem parar para observá-las e vivo a infinitude de contemplação de seus lindos fractais. Como é possível passarem despercebidos entre as exuberantes cores das pétalas das flores? É essa indiferença que me fez fechar os meus olhos para aquilo que não se pode ver.

Buscam métricas, conselhos e conceitos para confirmarem que sua (tão importante) mediocridade é apurada, é distinta e é uns, mas não outros. A poesia está lá, está sendo cantada, mas se não é astuta "segundo quem", é pobre, inferior. Como posso me fazer presente se da minha presença só querem o ter estado, sem prestar atenção nos versos que quis ouvir junto? Por que é minha culpa não pedir pelos fins? Agora eu preciso dizer que as estrofes eram o tempo todo essa fantasia disforme em prosa e crítica?

É preciso agredir com o inusitado só para demonstrar que um desejo abstrato é totalmente lúcido? Não quero dar o gostinho a quem me machuca de que sua misericórdia é o que me manteve de pé. Cada ataque a ponta de faca só reproduz frustração.

Então repare os sujeitos: não quero ser enigmático, quero ser lido para que o último lapso espiritual que me entretém seja confirmado, para que eu possa amar como amo sendo confrontado pelo irreal. Quero que o impossível me destitua da ilusão e eu seja enfim compreendido. É sim sobre mim, mas sobre cada fragmento que deixei, com ou sem amor, perdido nas entrelinhas dos caminhos de onde me fiz ser ouvido.

Essa é a estética decadente: todos esses pedaços de mim. 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Aliviando a dor que mata

 O peso do descanso é desolador, é uma treva que se acumula por entre a mente de quem tanto levou a descansar. É um exame de check-up que reflete cada pedacinho de emoção vivido no tempo, que acumulou desgaste e dor, é uma confirmação de todos os erros e acertos. É sufocante, mas tem sua beleza - pavorosa, ainda assim, complexa e resoluta.

Essa beleza que me destrói é também a que me faz rever o mundo. Tenho um tesão inexplicável pela paz e dela me consumo. Repensar o passado é um tiro de dardos num alvo fractal: tem probabilidade baixa de acertar, mas positiva; e tal positividade é ambivalente, já que também encrosta a esperança. Daí vem e daí parte a paz: é despreocupar-se e então reanimar-se, é reanimar-se e então despreocupar-se, é desse tesão autoalimentado que me refiro por paz.

A paz tem seu preço. É amarga como um café feito com muito pó e pouca água, resvala um sabor adstringente, mas permite andar mesmo com a perna bamba e uma sensação horrenda no rosto, um verdadeiro vitral na face. Note que é arte, arte de caras e bocas, enfeitada com a desilusão de um simples café. E dessa arte nos revigoramos, conseguimos levantar, sentimos as lágrimas escorrendo, de tempos em tempos, chuvosas, e delas nos fazemos indiferentes (se assim o fizermos). Alguns se recompõem com ginásio, outros com livros, outros com música, filmes, teatro, artesanato. Esse é o preço da paz: dói, mas permite o movimento.

Cada vez que andamos de mãos dadas; a sensação da paternidade não me assusta como aos tolos, mesmo que terceirizada, mas me assustou como um inexperiente; eu era uma criança cuidando de outra. Cada vez que andamos de mãos dadas, eu era feliz, dessa vez sobre ela. Antes de entender mais sobre mim, eu já sabia que o caminhar, com todas suas nuances, com a arte abstrata do concreto e do aço, com as sombras desproporcionais e toda a dor dos problemas sociais, eu já sabia que o caminhar de mãos dadas era um evento imenso pra minha mente e coração.

Nesses anos todos, foi muito difícil entender o método que funcionava. Talvez até hoje eu não saiba como funciono, mas sei que funciono e até que funciono bem. E dessa incompreensão vieram duas sutilezas que ainda me são estranhas: 1) por que me acham inteligente? e 2) por que sou carismático?

A primeira pergunta não é um tipo de falsa modéstia. Eu reconheço minha forma de pensar, mas não entendo porque pessoas chegam a esse tipo de conclusão sobre mim sem nenhum respaldo objetivo; muitas vezes eu sendo um péssimo aluno, tendo opiniões quase simplistas por diversos assuntos, mas pessoas e professores sempre me disseram isso, mesmo quando pra mim essa conclusão não fazia sentido. Eu só tive notas boas no ensino fundamental, depois disso, sempre fui um aluno mediano.

Enquanto para a primeira pergunta, eu consigo sentir um fio de resposta, a segunda me é absurda. Eu sou um esquisito, talvez de 2016 em diante, um pouco menos, mas tenho minhas esquisitices. Socialmente, muitas vezes sou estranho, um pouco afastado, com piadas totalmente desconexas (e que pra mim fazem sentido), não faz sentido esse carisma que tenho. Certamente, meus amigos gostarem de mim não é algo que me assusta, mas quando vejo desconhecidos, e com tanta frequência os vejo gostando de mim, eu fico assustado! Não sei se faço tanto por onde, e se faço, estou assustado com o comportamento médio das pessoas porque é aí onde me vejo: uma pessoa de hábitos sociais medianos.

Não estou criando caso, essas talvez sejam as questões superficiais dos últimos anos. Tantas outras estão por vir, tantas outras não posso dizer. É aí que vem meu susto, a dor que traz o descanso ou a potencialidade do descanso após tão prolongado tempo. Há um volume inimaginável de questões que me depararei, que refutarei, mas que no fundo, aceitarei. Talvez o descanso seja pra confirmar: eu sou eu, agora é hora de viver ou, como tenho pensado insistentemente nos últimos dias e semanas, é hora de surfar na onda do meu pensar.

Ouça essa música sem pensar em amor (ou sob algum risco, pense!): https://open.spotify.com/intl-pt/track/7K5rZnp7C07SVotXqMaKFp?si=b863f7b820f140d3 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Sobre as férias mais aguardadas da minha vida

 Hoje não é sobre um grande amor que perdi, nem sobre um grande amor que surgirá, nem sobre cigarro, nem sobre a empolgação de ter consciência de ser como sou, nem sobre a solidão, nem sobre a solitude, nem sobre exercícios físicos, karatê, capoeira, natação, ortografia, neurociência, matemática, jurisprudência, lata vazia de refrigerante.

 Eu estou cansado.

Hoje foi minha última reunião do ano, do meu primeiro ano de pós-doutorado. Desde que defendi o doutorado, não parei - estava desempregado, era problema social, dava aulas particulares, terminei tese, continuei trabalhando na pesquisa, eu, enfim, não parei.

Durante o doutorado, um período extremamente intenso de pandemia já no terceiro mês, depois um relacionamento em tão poucos meses seguintes, que evoluiu rápido e em pouco tempo estava morando junto, com uma criança a quem tive que aprender (e que em vários momentos, deixei a desejar como referência), uma pesquisa a realizar, tese a escrever, de repente, novos trabalhos pois a bolsa era curta, e mais trabalho, mais trabalho, preocupações doutorais e da vida [de quem é pobre], eu não tive férias. Saí uma vez, foi uma bela de uma pausa, um belo de um momento, mas naquele momento, não deu tempo de descansar. Depois término, fim de emprego, pressão da tese, coisas dando errado. A depressão bateu, segurou, agarrou e assim seguiu até bem pouco tempo atrás, bem depois da defesa. Sendo justo, foi um único período de férias na metade dos longos 4 anos e meio, mas que mal deram pra tirar o desgaste.

Antes disso, mestrado. Não tive férias de novo, mas teve término no meio, dessa vez com outra namorada, mas essa a dor foi mais branda, teve problemas de saúde na família, os amigos que fiquei tanto tempo sem ver, não tive férias mas me reconectei.

Antes do mestrado, eu não tinha grana pra nada que não fosse um bar de rock, mas tudo bem! Nessa época eu não estava desgastado. 

Devo dizer que quando defendi, saiu um peso das costas, mas não consegui descansar, foi um período trágico. A depressão tomava conta de mim nos instantes em que não estava com os outros. Devo tirar uns dias pra repensar o mundo, repensar a vida, espero que repensar tudo da melhor forma possível. 

Este não é meu texto mais bonito, nem bem escrito, nem nada. É só um desabafo pra quem quer que queira ler, seja outrem, seja o Denis do futuro. Vou sumir das redes, espero, por um tempo. Eu mereço a paz que tanto me espera pra voltar com tudo numa verdadeira nova versão. Não vou pro tudo ou nada, mas espero me surpreender com o que vem após esse período.

Obrigado, você certamente foi importante nesse processo. 

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Mas tá tudo bem

Não sei amar raso,
por isso me atraso,
nado e me arraso,
enxugo e passo,
caminho e laço,
cavalo e cavaco,
com ou sem corda,
porque se batuca,
incomoda e machuca,
mas é a vida.

Por isso, repito:
não sei amar raso,
nisso me atraso,
nado e me arraso,
mas é a vida.

Você se convence,
eu fico feliz.
Que dor é o amor
de quem sabe amar
a vida e os objetos,
o mundo e as relações,
as cores e os sabores,
ciências e etc,
verdades e mentiras
na ótica do discurso.

Que viés me consome,
de ser eu em meu nome,
mas assim mato a fome,
desse mesmo amor cafona
que parece egoísta,
mas não sei amar raso
e nisso me atraso,
vou, nado e me arraso,
mas é a vida.




segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Há algo mais

Eu me arrependo de me expor. Essa falta de quem me apoie, me entenda, me compreenda é tão dolorida, mas ao mesmo tempo não dá pra buscar alguém, não dá pra encontrar, só dá pra viver. No fim, eu aprendo um pouco mais sobre o mundo e sobre mim, e me apoio, me entendo, me compreendo. 

Se às vezes parece que me faltam amigos, às vezes o que me falta é apenas colo com tensão sexual latente. Um abraço, uma palavra amiga, uma palavra de orgulho de quem quer compenetrar na minha alma, com todas as doses de amor possíveis. Às vezes a falta é de um amor que sente sem limites, a ponto de compartilhar das ansiedades, dores, objetivos e frustrações. Pode ser que hoje seja assim que me sinta: deslocado, buscando motivos pra viver. 

Tenho medo de viver assim, sem muito propósito, porque adoecer poderia me levar mais fácil. Sinto que essa tristeza existencial vai consumindo meus neurônios, cardiomiócitos e pneumócitos. Seria caso de largar o cigarro, que é plano, meta, mas e daí? Sinto-me perdido, tentando vencer a inércia, não tanto pela dor do antigo amor ausente, mas dor de ter ausentado meu coração de sentir por alguém. Nesse ponto sim, vem a imagem dos meus queridos amigos, talvez eles sejam o que me mantém firme, mas não parece bastar. 

É sobre construir a vida: eu havia feito uma bela construção que ruiu e já está loteada - espero que sem o risco de trazer farpas ou pregos ao vento, mas e agora, o que vem? Se sou o homem que dizem que sou, se trago tão boas vibrações por onde passo, por que tanto sofrimento? O que fiz pra merecer essa angústia descamante que transcende o meio físico que abriga minha existência? É minha mente se perdendo de mim, meus sentidos confusos, minha dor no pescoço que não há travesseiro que cure, minha lombar que anseia pela dor do exercício físico que foi se perdendo.

Vale tanto a pena assim a sobriedade? É um sentimento tão inóspito que o que me resta é um pensar infantil, um pensar moral que me tranca o agir, que me torna tão quadrado e, enfim, só. Um a um dos que eu sempre mais gostei foram se distanciando. Agora eu me ponho nessa busca de quem possa estar por perto de maneira mais intensa, e com meu jeito infantil de ser, me abro, me exponho, jogo pra fora tudo isso que escrevo, e depois sou recebido com uma dose agressiva de resposta. Tão hostil, com tanta indiferença, provavelmente é o que mais dói.

Eu não pedi pra ser como sou, eu não pedi nada, eu só fui vivendo e não soube me preparar pro momento em que descobrisse que tudo o que falei, fiz e senti foi reflexo de uma assimetria com o mundo, que pra mim nada havia de diferente. Mas era. Agora tenho poucos (mas tenho!) em quem me espelhar, a quem observar, mas de que adianta? Buscar viver anestesiado com o queixo inchado, olhos disfuncionais e o cinturão dos pesos pesados? Pra quem será esse título se não para os outros? Pra mim o que fica? Fica a angústia que não me deixa fugir pras montanhas, que não me permite ser um ermitão, pois, é óbvio!, eu dependo da atenção alheia.

Parece que é um poço sem fundo, e solitário, sem as vozes lá em cima dizendo "vou buscar ajuda", "vai ficar tudo bem." Posso dizer que é ansiedade o que me aflige, mas lendo e relendo toda essa honestidade intelectual que me põe em risco, vejo que não é só. Há algo mais.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Resolução e paz

A maior desgraça que já me ocorreu 
tem nome, tem endereço,
só não tem apreço
e, sinto muito, já deu.

Não sou poeta, sou sonhador,
é diferente!
Componho com dor,
dor de amor ausente.
Ela nunca perdoou minha rejeição
e me rejeita com indecisão.

De que importa agora?
Só quero paz e resolução,
e nada de dar atenção
pra quem me dá bola fora.

Aí os que se importam reclamam comigo 
por eu ser intenso na desilusão.
Não percebi que só pensava no próprio umbigo,
mas ela deixou evidente em primeira mão.
Agora dirão que sou pobre coitado,
E o plano é curtir a vida adoidado.

Felizmente tenho autoconsciência,
mais de trinta e duas histórias,
e que ela tenha ciência,
que não foi baixo o número de vitórias.

Um mundo novo se apresenta,
terei humildade para vivê-lo.
Vou a pé ou a camelo,
pra aproveitá-lo em marcha lenta.