sábado, 6 de junho de 2026

Um estalo

Não vou dizer que sempre me atraiu a ideia da infinitude, mas trago um relato sobre o infinito.

Assim como a água se transforma em gelo, passei por uma mudança estrutural na minha forma de agir, pensar e sentir. Não foi como pequenas nuances que vão se acumulando sobre a vida e de repente, de azul torna-se verde, de cobre torna-se bronze, após semanas de observação calada, meses de pequenos sustos; nem reparou, mas o cabelo curto agora está enorme.

Não um singelo sorriso após a constatação de que aquela dor que ruía a alma foi deixando de doer e sumiu, não um vício de linguagem que simplesmente deixou de acontecer nas falas mais desavisadas. Não vi uma mudança suave, eu vivi um estalo. Foi uma explosão neural que me fez enxergar o futuro, sem ver uma só cena, mas a contemplação da imensidão diante da minha própria presença opaca num mundo paralisado, onde uma só imagem me valia a eternidade.

Foi na Rua Odorico Mendes. Ali, eu passei por uma epifania, foi quando tomei a melhor e a pior decisão da minha vida, simplesmente por ter passado pela experiência de enxergar o universo, a natureza, os astros, os sons, todos numa perfeita sinfonia em que eu não era maestro, era apenas espectador. O mundo se recombinou num curto instante de tempo assim como um déjà vu, mas que não era uma cena que se repetia, era toda a imensidão do existir.

Não havia eu, não havia nós, não havia sujeito, não havia predicado, não havia ponto, não havia conjunto. Era simplesmente o ser. Talvez ali tenha sido o ápice da minha existência que, tristemente, só eu pude conceber e que nunca, em nenhum momento da minha história, poderei transmitir o que foi. Não que fosse Sidarta de Hesse, não era nirvana, era simplesmente o ser.

Solidão existencial não é isso, pois se mensura, dimensiona e se trata. Ela é um copo cheio que só se bebe pela alma, coisa que só quando se identifica se compartilha e só quando se é bebida se rompe. A solidão existencial é um choro vazio no inferno, onde cada um é alheio a ela e a ninguém toca porque ninguém consegue ouvir. Desfazê-la é renascer, é recompor-se, mas ela não é o objeto deste texto. É laborioso, árduo e desconfortável, mas com sorte é possível romper.

Seria prepotência dizer que esta é uma genuína reflexão sobre transcender, até porque não é. Esta é uma reflexão sobre a paixão absoluta por viver. O problema é não ser possível entender que é paixão sem contrapor sua sensação calma, quente e vigorante com um ar desesperado, gélido e drenante. Talvez aqui é onde a solidão existencial surja, como auxiliar, pois não se costuma deformar a sensação suprema do sentir-se bem para acomodá-la num plano de fundo deteriorado com a dor mais profunda. 

Afinal, entende-se que a melhor forma de se expressar o amor puro e cristalino é exaltando-o sob a neutralidade dos sentidos. Isso é quase banalizar o sentimento com a mediocridade, dizendo que é perfeito e bom e por isso destoa do que é comum. Este não é o intuito aqui. É justo dizer que o ódio e a depressão calibram o amor, pois o não-amor é só um fato ordinário e o desamor, na contramão de sua essência, costuma ser o fim da vida de muitos que têm a sensibilidade exacerbada.

Foi em 2021. Se no Soneto 81, de Camões, ou na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo 13, de Paulo, existe um apelo tão grande ao sentimento, contrastando-o em vários momentos com seus antônimos, sendo elas das obras mais impecáveis e lúcidas sobre ele, como na minha insignificância eu poderia diminuir o amor dizendo-o simplesmente o apogeu da existência? Como eu poderia dizer que é algo tão belo, tão impecável, tão perfeito, em detrimento de sua imagem perante o trivial?

Amor não pode ser diminuto, não pode ser definido, não pode ser encaixado, não pode existir por outra via que não o sentir. É um consenso universal do que é, mas não transita pela banalidade da racionalização. É violento como a Garganta do Diabo irrompendo o ciclo das águas, como um avião rasgando o ar num impulso sônico ou o grito de uma mãe parindo. Essa violência que assusta pela potência, mas que pode trazer lágrimas aos olhos pela beleza extrema. Constrói, destrói e reconstrói: é a desestabilização completa das estruturas físicas e metafísicas.

Não é o nirvana, mas transcende, vai além sem desfazer-se em abstração. É coração pulsante, pupilas dilatadas, suspiros irrompidos, ansiedade e medo. Perpassa o agressivo, as lágrimas, os fluidos, o sangue. É errante, frustra, machuca, enobrece, faz tudo: todas as coisas vivas e as não animadas serem apenas o pequeno infinito que são. É complexo, é talvez o Dasein, e é, por excelência.

Foi assim que contemplei a verdade absoluta num instante e percebi que a vida após ganhar sentido torna-se plenamente amor. 

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