sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Aliviando a dor que mata

 O peso do descanso é desolador, é uma treva que se acumula por entre a mente de quem tanto levou a descansar. É um exame de check-up que reflete cada pedacinho de emoção vivido no tempo, que acumulou desgaste e dor, é uma confirmação de todos os erros e acertos. É sufocante, mas tem sua beleza - pavorosa, ainda assim, complexa e resoluta.

Essa beleza que me destrói é também a que me faz rever o mundo. Tenho um tesão inexplicável pela paz e dela me consumo. Repensar o passado é um tiro de dardos num alvo fractal: tem probabilidade baixa de acertar, mas positiva; e tal positividade é ambivalente, já que também encrosta a esperança. Daí vem e daí parte a paz: é despreocupar-se e então reanimar-se, é reanimar-se e então despreocupar-se, é desse tesão autoalimentado que me refiro por paz.

A paz tem seu preço. É amarga como um café feito com muito pó e pouca água, resvala um sabor adstringente, mas permite andar mesmo com a perna bamba e uma sensação horrenda no rosto, um verdadeiro vitral na face. Note que é arte, arte de caras e bocas, enfeitada com a desilusão de um simples café. E dessa arte nos revigoramos, conseguimos levantar, sentimos as lágrimas escorrendo, de tempos em tempos, chuvosas, e delas nos fazemos indiferentes (se assim o fizermos). Alguns se recompõem com ginásio, outros com livros, outros com música, filmes, teatro, artesanato. Esse é o preço da paz: dói, mas permite o movimento.

Cada vez que andamos de mãos dadas; a sensação da paternidade não me assusta como aos tolos, mesmo que terceirizada, mas me assustou como um inexperiente; eu era uma criança cuidando de outra. Cada vez que andamos de mãos dadas, eu era feliz, dessa vez sobre ela. Antes de entender mais sobre mim, eu já sabia que o caminhar, com todas suas nuances, com a arte abstrata do concreto e do aço, com as sombras desproporcionais e toda a dor dos problemas sociais, eu já sabia que o caminhar de mãos dadas era um evento imenso pra minha mente e coração.

Nesses anos todos, foi muito difícil entender o método que funcionava. Talvez até hoje eu não saiba como funciono, mas sei que funciono e até que funciono bem. E dessa incompreensão vieram duas sutilezas que ainda me são estranhas: 1) por que me acham inteligente? e 2) por que sou carismático?

A primeira pergunta não é um tipo de falsa modéstia. Eu reconheço minha forma de pensar, mas não entendo porque pessoas chegam a esse tipo de conclusão sobre mim sem nenhum respaldo objetivo; muitas vezes eu sendo um péssimo aluno, tendo opiniões quase simplistas por diversos assuntos, mas pessoas e professores sempre me disseram isso, mesmo quando pra mim essa conclusão não fazia sentido. Eu só tive notas boas no ensino fundamental, depois disso, sempre fui um aluno mediano.

Enquanto para a primeira pergunta, eu consigo sentir um fio de resposta, a segunda me é absurda. Eu sou um esquisito, talvez de 2016 em diante, um pouco menos, mas tenho minhas esquisitices. Socialmente, muitas vezes sou estranho, um pouco afastado, com piadas totalmente desconexas (e que pra mim fazem sentido), não faz sentido esse carisma que tenho. Certamente, meus amigos gostarem de mim não é algo que me assusta, mas quando vejo desconhecidos, e com tanta frequência os vejo gostando de mim, eu fico assustado! Não sei se faço tanto por onde, e se faço, estou assustado com o comportamento médio das pessoas porque é aí onde me vejo: uma pessoa de hábitos sociais medianos.

Não estou criando caso, essas talvez sejam as questões superficiais dos últimos anos. Tantas outras estão por vir, tantas outras não posso dizer. É aí que vem meu susto, a dor que traz o descanso ou a potencialidade do descanso após tão prolongado tempo. Há um volume inimaginável de questões que me depararei, que refutarei, mas que no fundo, aceitarei. Talvez o descanso seja pra confirmar: eu sou eu, agora é hora de viver ou, como tenho pensado insistentemente nos últimos dias e semanas, é hora de surfar na onda do meu pensar.

Ouça essa música sem pensar em amor (ou sob algum risco, pense!): https://open.spotify.com/intl-pt/track/7K5rZnp7C07SVotXqMaKFp?si=b863f7b820f140d3 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Sobre as férias mais aguardadas da minha vida

 Hoje não é sobre um grande amor que perdi, nem sobre um grande amor que surgirá, nem sobre cigarro, nem sobre a empolgação de ter consciência de ser como sou, nem sobre a solidão, nem sobre a solitude, nem sobre exercícios físicos, karatê, capoeira, natação, ortografia, neurociência, matemática, jurisprudência, lata vazia de refrigerante.

 Eu estou cansado.

Hoje foi minha última reunião do ano, do meu primeiro ano de pós-doutorado. Desde que defendi o doutorado, não parei - estava desempregado, era problema social, dava aulas particulares, terminei tese, continuei trabalhando na pesquisa, eu, enfim, não parei.

Durante o doutorado, um período extremamente intenso de pandemia já no terceiro mês, depois um relacionamento em tão poucos meses seguintes, que evoluiu rápido e em pouco tempo estava morando junto, com uma criança a quem tive que aprender (e que em vários momentos, deixei a desejar como referência), uma pesquisa a realizar, tese a escrever, de repente, novos trabalhos pois a bolsa era curta, e mais trabalho, mais trabalho, preocupações doutorais e da vida [de quem é pobre], eu não tive férias. Saí uma vez, foi uma bela de uma pausa, um belo de um momento, mas naquele momento, não deu tempo de descansar. Depois término, fim de emprego, pressão da tese, coisas dando errado. A depressão bateu, segurou, agarrou e assim seguiu até bem pouco tempo atrás, bem depois da defesa. Sendo justo, foi um único período de férias na metade dos longos 4 anos e meio, mas que mal deram pra tirar o desgaste.

Antes disso, mestrado. Não tive férias de novo, mas teve término no meio, dessa vez com outra namorada, mas essa a dor foi mais branda, teve problemas de saúde na família, os amigos que fiquei tanto tempo sem ver, não tive férias mas me reconectei.

Antes do mestrado, eu não tinha grana pra nada que não fosse um bar de rock, mas tudo bem! Nessa época eu não estava desgastado. 

Devo dizer que quando defendi, saiu um peso das costas, mas não consegui descansar, foi um período trágico. A depressão tomava conta de mim nos instantes em que não estava com os outros. Devo tirar uns dias pra repensar o mundo, repensar a vida, espero que repensar tudo da melhor forma possível. 

Este não é meu texto mais bonito, nem bem escrito, nem nada. É só um desabafo pra quem quer que queira ler, seja outrem, seja o Denis do futuro. Vou sumir das redes, espero, por um tempo. Eu mereço a paz que tanto me espera pra voltar com tudo numa verdadeira nova versão. Não vou pro tudo ou nada, mas espero me surpreender com o que vem após esse período.

Obrigado, você certamente foi importante nesse processo.