Talvez o título fosse Thais.
Ao longo desses 3 anos, me custou muito escrever sobre você.
Nunca entendi meu amor, afinal, nos conhecemos trabalhando ou, ao menos, eu te conheci lá. Sempre lembrava da nossa foto no evento. Eventualmente, alguns meses ou anos depois, começamos a conversar - bendita seja a pandemia! - e de uma torta de frango, surgiu uma boa amizade.
A amizade foi melhorando, nós fomos nos gostando, eu gostava da sua companhia online, sem nunca suspeitar que aquilo fosse gostar tanto da sua companhia, que aquilo fosse gostar de você. Eu tinha um trauma, eu achava que amava aquela que me traumatizou. Eram questões sexuais, as quais nunca vim a ter contigo, era aí que se escorava minha incompreensão natural do que eu sentia.
Nesse tempo de pandemia, fui à terapia, e o tema recorrente era "ela é uma rebound girl?" Eu sempre suspeitava que meu amor estivesse noutro canto, até finalmente aceitar que o meu mundo foi todo englobado por você, pelo meu conceito de mundo que agora era, na verdade, você. Foi num piscar de olhos quando eu respirei e pensei "meu mundo é a Thais." Eu dizia "te amo hoje" porque eu tinha alguma noção da infinitude que é amar, mas sem conseguir conceber a existência de um ponto mais distante do que sentia por você. Era divertido acordar todos os dias tendo certeza de que estava vivendo algo transcendental.
Você era sonhadora e eu sempre me encantei quando você transparecia isso. Eu sempre sonhei, meus sonhos sempre foram o que me movia, mas em algum momento, você conseguiu sobrepor qualquer nível de importância de qualquer coisa na minha vida. Eu te admirava em tudo, você era tão inteligente, sabia conversar tão bem, era mais doce que qualquer doçura que eu ousaria conhecer, e de uma beleza que eu nunca me cansei de ver, contemplar, parar e sorrir. Eu sorria bobinho, acordado e dormindo, quando pensava em você, quando pensava na ideia de ter você ao meu lado.
Dessa forma, eu não soube me lidar com o que sentia por você. Eu não queria te levar problemas, eu sabia todos ou talvez quase todos os seus traumas, mas tinha medo de entregar os meus. Vivi epifanias e infernos mentais ao seu lado pra não trazê-los a você. Naquilo que eu discordava de você, eu não sabia como te dizer, mas fomentava um ódio cego e desmedido. Isso gerava nossas brigas, você talvez naquele momento fosse areia demais para o meu caminhãozinho. Eu sabia que teria um caminhãozão, era o que todos à minha volta diziam, inclusive meu subconsciente, mas naquele momento eu era um doutorando fragilizado por sonhos e estilo de vida que só fariam sentido aí serem protagonizados por uma pessoa de classe média.
Seguramente, terei muito mais afinco pra escrever sobre esse momento em outro momento. Meu sonho de pequeno era ter alguém parecido comigo, alguém que pudesse me espelhar. Eu só fui entender que isso não seria possível no último ano. E daquele momento até pouco tempo atrás, minha maior frustração, minha maior dor foi descobrir que não teria em quem me espelhar. E veja a injustiça do universo: minha maior dor era ao mesmo tempo o fator que me possibilitaria traçar um caminho único na vida. Tudo isso pra te dizer que eu fui ouvir as pessoas; que eu fui ouvir o que tinham a dizer.
Pessoas que não tinham as minhas crenças, que não entendiam o mundo como entendo, que não sentiam o mundo como sinto, que nem sequer abstraíam sobre o mundo, como tanto fiz a vida inteira. Essas foram as pessoas que eu ouvi. Thais, não sei se é certo pensar num mundo contigo, hoje não sei se é o que eu quero, nem se é o que eu não quero, mas tudo que fiz a respeito de nós no nosso término foi ouvindo as pessoas e não ouvindo às pessoas. E veja que esses conselhos das pessoas depois (esse 'às pessoas') viriam a ser ainda piores do que aquilo que elas me diziam sem que eu pedisse conselhos.
Todo mundo quer o bem de todo mundo: de boas intenções, o inferno está cheio. Às vezes, querem o mal também, mas eu não devia escutá-los. Se os tivesse escutado, não seria doutor hoje, nem mestre, nem respeitado em todos os lugares que frequento, seja favela, seja jardins, seja universidade. Ao longo dos últimos tempos, ouvi que sou arrogante, que sou intransigente, que sou machista, que sou pilantra, com certeza terão dito coisas piores, enfim, coisas que a tal consciência tranquila serviria para não me incomodar, não tivesse ouvido isso das pessoas que me disseram essas coisas. Algumas dessas pessoas irrelevantes, algumas dessas afirmações grotescamente erradas, mas quem quer ouvir isso de amigos ou familiares?
Dessas pessoas, eu fiz o meu conceito, o conceito de uma pessoa que nunca teve em quem se espelhar, do que é uma relação feliz, do que é até felicidade ou até do que não é felicidade. Driblaríamos as dificuldade em algum momento. Tínhamos as minhas, tínhamos as suas, tínhamos as do Pietro! Ambos com diversas questões a serem superadas e ambos que estavam dispostos a superá-las. Ao menos, naquele momento. E hoje, ao longo desses 3 anos, fomos vivendo colchas de retalhos, fomos pulando em armadilhas psicológicas, onde vamos e voltamos, em simples mensagens de celular ou momentos mais próximos. Abastecemos aquela necessidade na reserva de nos vermos e paramos, sempre com o saldo de um dos dois sofrendo.
Aqui eu tenho liberdade para não mentir e mostrar o meu egoísmo: eu não concordo com isso que te seduziu. Eu estava ao seu lado e me senti traído quando você começou a fugir daquilo que eu acreditava que era você - você nunca concordou quando falei isso, mas você mudou demais, e eu também. Eu me senti traído em cada vez que eu acordava cedo e dormia tarde, pensando e discutindo estratégias do seu trabalho, tentando ser um parceiro na educação do Pietro (e aqui é onde eu mais me odeio por ter errado), e você parecendo não reconhecer que o sustento da nossa casa não era apenas aquela pequena fração financeira do que eu contribuía. E que inferno todas as vezes que tentamos nos abrir e não conseguimos! E que inferno você ter encontrado alguém! E que inferno que eu jamais consegui me manter mais de 6 semanas em cada relação que tive depois do nosso fim por me sentir te traindo! E que inferno é eu hoje ter um futuro que há quem considere brilhante e não ter com quem partilhar por ter queimado todas as portas da única pessoa que eu verdadeiramente gostaria de partilhar!
Que inferno é tudo o que aconteceu depois que escolhemos morar juntos, sem nos preparar, com a cara e a coragem, e a irresponsabilidade! Que inferno é essa sociedade de merda que do meu e do seu lado diz que não combinamos! Que inferno é ser uma pessoa neurodivergente e diferente e nem poder falar sobre isso porque me chamarão de arrogante! Que inferno é não termos sido perfeitos um para o outro e termos, enfim, acabado!
Que inferno é parecer frágil, mesmo sendo o homão da porra que sou, porque pra mim, você está num pedestal que ninguém nunca conseguirá conceber. Eu te desejo a felicidade plena!
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